Dos nossos planos é que tenho mais saudade…

Relato sobre um jogo de 5 minutos ou uma vida inteira.

Prólogo: Passage é um jogo pixel art bem desconcertante com a duração de 5 minutos. Joguei duas vezes.

Na primeira vez, comecei a andar. Andei a esmo. Pra cima, pra baixo. Andei até um ponto e percebi que a tendência era “ir à direita”. Continuei seguindo e avançando. Olhei no canto da tela e percebi que havia um tesouro. Fui em direção e descobri outros. Comecei a coletá-los pelo labirinto que se formava. Sentia a necessidade de cumprir um objetivo, de coletar itens, de fazer algo semelhante ao que era costumeiro em jogos: acumular experiência, pontos e enfrentar um boss. Alguns dos tesouros liberavam estrelas azuis, mas outros não liberavam nada. Pensei, então, que havia uma ordem pra abri-los. A ordem correta talvez definisse se o tesouro liberaria um prêmio ou não. Como se fosse sempre a partir do primeiro que aparecesse na tela, ou sempre de cima para baixo, ou o contrário. Enfim, eu fiquei estipulando objetivos quase que freneticamente.

Enquanto isso, eu andava e andava pelo labirinto. Por estar tão ocupada com os tesouros, mal percebi que o meu personagem estava mudando. Em algum momento, olhei bem e reparei que ele estava calvo e com cores menos vivas. “Hm, ele está envelhecendo”, entendi. Fiquei um pouco angustiada com a sensação de andar e meu personagem ficar cada vez mais velho, mais lento e menos vivo. Até que ele parou e repentinamente se transformou em uma lápide. Enfim, a tela escureceu e o nome do jogo apareceu, como que para explicar todo o percurso ao longo desses 5 minutos. Game over.

Mesmo assim eu não fiquei satisfeita. Eu achei que deveria haver outra coisa a ser feita, algum segredo a ser descoberto. Talvez eu tivesse de ir mais longe, antes que o meu personagem definhasse. Ou talvez eu devesse experimentar um outro caminho. Recomecei o jogo e  fui explorar outras áreas. Encontrei uma mulher pelo caminho (com quem casei) e  passei a andar em linha reta sempre que possível, até o máximo que pude. Sempre em companhia da parceira.

Foi muito curiosa a trajetória como casal. Os tesouros ficavam reclusos em pequenas câmaras, com entradas não muito maiores que qualquer um dos personagens. Em casal o acesso a algumas câmaras era dificultado, pois os dois sempre andavam juntos e, para entrar, contavam como um “bloco”. Tive de abrir mão de alguns tesouros que nem sempre eram premiados em prol da vida em comunhão. O que não foi tão dificultoso assim.

Apesar das limitações gráficas dos pixels 8×8, o cenário do jogo é muito rico: mudança de cores vivas para tonalidades acinzentadas, mostrando visualmente a ideia de passagem. A mesma passagem, como era de se imaginar, passou a acontecer não só ao meu personagem, mas à companheira, que morreu antes. A morte dela me fez ver que o jogo pararia por ali. Por isso, deixei meu personagem ao lado da lápide da esposa até que ele morresse. Novamente a tela ficou preta e o nome do jogo apareceu.

Fiquei um pouco pensativa depois dessas duas jogadas. Apesar de ter sacado algumas coisas, em momento algum eu fiz alguma associação com a vida: tesouros, labirintos, cenário transitório remetendo ao passado-presente-futuro. Apenas entendi o conceito de vida dentro da ideia de Passage e percebi as personagens envelhecerem, dando-me conta de que o jogo “não iria além disso” (pensamento funcional). Pensar que o jogo não vai além disso é limitado frente a tudo que pode ser experimentado. É pensar apenas em um jogo sem relacioná-lo com uma experiência além do simples coletar de moedas. É como dizer “Ah, que jogo chato, não tem nada pra se fazer”.
De fato, não há o que ser feito. Não há o que ser coletado, não há o que ser vencido. Passage é uma metáfora.  Ele tem o intuito de causar reflexão e é esse o mote do jogo exclusivamente. É um jogo triste mas simbólico, antes de tudo. Ele usa representações para instigar o jogador a considerar. Considerar os caminhos, as escolhas, a morte. Os minutos que se passam depois que a lápide é formada são os minutos de compreensão da experiência do jogo. Como refletir sobre um filme enquanto sobem os créditos.

Entra-se, a partir daí, na questão do game ser arte. Se a arte tem o intuito de sensibilizar,  é isso que Passage faz. É isso que, na verdade, todos os jogos fazem. Sensibilizam, entretêm, educam das mais variadas formas: usam a trilha sonora, usam o cenário, usam a jogabilidade, usam a própria personagem que você comanda (que coleta itens, que apanha, que fica mais forte durante o jogo pra conseguir vencer o obstáculo final), usam a sua capacidade de entretenimento como passatempo. Usam também violência, usam concepções bonitinhas, criam uma estética nova e, afinal, criam ídolos.

Epílogo: Criado e desenvolvido por Jason Rohrer, o jogo reflete os pensamentos e experiências do autor quanto à vida e à morte. Passage não é um  jogo artisticamente bonito. Sua arte em pixel 8×8 é o suficiente para passar a experiência do jogo que, esta sim, é bonita. É indiferente se você tenta coletar o máximo de tesouros que puder, se você escolhe viver a dois ou decide seguir sozinho. A passagem do tempo é rigorosa e levará abruptamente o seu personagem ao túmulo. Você sentirá uma verdadeira sensação de perda e de nostalgia no investimento desses cinco minutos e, então, você também vai se desfazer quando o título aparecer de novo na tela.

A própria descrição do autor sobre o jogo aqui.

E o download do jogo aqui.

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